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Desde que Dilma Rousseff deixou o Planalto, há 109 dias, uma foto com seu rosto de guerrilheira, emoldurado por grossas lentes, repousa solitária num poste de energia elétrica diante do palácio hoje comandado pelo presidente em exercício, Michel Temer. A cinco quilômetros dali, no Palácio da Alvorada, a mulher que responde a processo de impeachment por crime de responsabilidade ainda tem na ponta da língua o mesmo discurso da resistência com o qual pretende enfrentar seus algozes nesta segunda-feira (29), quando vai ao Senado para se defender.

Ao que tudo indica, porém, Dilma viverá nesta semana seus últimos dias de poder em Brasília. No Alvorada, ela tem feito treinamento intensivo para responder às perguntas mais duras dos senadores. Apesar do clima tenso, a petista demonstrou bom humor. “Ajeita essa gravata torta, Zé Eduardo!”, pediu ela a José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça e seu advogado no processo de impeachment. “O que aconteceu com você que está mancando?”, perguntou. Cardozo sofreu distensão muscular no pé esquerdo, no último dia 20, quando tropeçou.

De maio para cá, Dilma reduziu a quantidade de broncas nos auxiliares. Uma das derradeiras foi em Miguel Rossetto, ex-ministro da Previdência. “Você está maluco?”, reagiu ela, provocando constrangimento em quem assistiu a cena.

A solidão de Dilma, nos capítulos que se seguiram a essa cena, impressionou até mesmo os aliados. Em 12 de julho, quando todos já se levantavam de um jantar oferecido por Kátia Abreu (PMDB-TO) a um seleto grupo de senadores, Dilma fez um apelo que revelou o quanto desejava romper o isolamento. “Não, não vão embora”, pediu ela. “Vamos prosear mais. É a primeira vez que eu saio sozinha”, confessou, animada, ao lembrar que não estava acompanhada de nenhum assessor. A “ordem” foi cumprida e a conversa, regada a vinho, durou até 1h naquele dia. Dilma parecia feliz. “A Presidência, para ela, é muito sofrida. Ela ficou sitiada no Planalto”, resumiu o senador João Capiberibe (PSB-AP), um dos presentes ao encontro.

Na longa jornada contra o impeachment, Dilma conversou com mais políticos do que em seus cinco anos e oito meses no Planalto.

Com tantos almoços e jantares, ela engordou cinco dos 17 quilos perdidos na dieta Ravenna. Preocupada, manteve todos os dias o hábito de pedalar e alongar o corpo por meia hora. Após fazer inúmeras contas de calorias, Dilma conseguiu incluir na dieta pequenos suspiros, adoçados com stevia, e não abre mão das sessões de acupuntura.

Metódica e disposta a emagrecer, a presidente afastada chegou a uma conclusão “estarrecedora” para quem ultrapassou os cem dias de solidão. “Um pote com 78 minissuspiros equivale a uma banana, minha filha”, revelou ela a uma amiga, sem esconder a alegria com a descoberta.

Na atual temporada, Dilma alternou momentos de abatimento aos de alívio. Não foram poucos os que disseram que ela parece ter tirado um “peso” das costas. Em uma das reuniões com militantes, porém, até da cor do rejunte no piso das moradias do programa Minha Casa Minha Vida ela falou. “Por que não pode ter rejunte rosa, rejunte verde?”, perguntou, detalhista, como se ainda estivesse no comando do projeto. Foi mais uma mostra de que Dilma está cada vez mais Dilma.

Abandono
Dilma recebeu no Alvorada dirigentes de partidos, senadores, deputados, intelectuais, sindicalistas, cineastas e até chef de cozinha. A cúpula do PT, no entanto, praticamente a abandonou.

Jantar após atrito
Após a confusão na sessão dessa sexta-feira (26), o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), convidou os senadores petistas Jorge Viana (AC) e Lindbergh Farias (RJ) para um jantar. Os três aproveitaram o encontro para rever as cenas do bate-boca. Viana afirmou que Renan reconheceu que se excedeu ao partir para o confronto com a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR).

Na conversa, os petistas fizeram um apelo para que Renan pedisse aos parlamentares para que haja uma postura de respeito em relação a Dilma Rousseff, que prestará depoimento nesta segunda-feira (29) no Senado.

Preparativos
Discurso. Dilma Rousseff passou a manhã desse sábado (27) no Palácio da Alvorada se preparando, ao lado de sua assessora Sandra Brandão (conhecida como “Google do Planalto”), para o depoimento que fará em sua defesa nesta segunda-feira (29), no Senado. Segundo um auxiliar, a petista está há dias lendo todos os depoimentos que as testemunhas prestaram na comissão do impeachment no Senado. Ela também está assistindo aos vídeos dos depoimentos e anotando as perguntas feitas pelos senadores nessa fase do processo.

Neste domingo (28), ela retomará a preparação pela manhã, segundo seus assessores. O ex-presidente Lula deve chegar a Brasília neste domingo (28) à tarde para encontrar Dilma e ajustar os últimos detalhes da fala da petista.



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