São Paulo – O ministro da Educação,
Aloizio Mercadante (
PT), foi gravado por José Eduardo Marzagão, assessor de
Delcídio do Amaral,
oferecendo apoio jurídico, financeiro e político para que o senador não
fizesse delação. A informação e os áudios foram publicados nesta
terça-feira (15) pelo site da revista VEJA.
Os encontros teriam acontecido em dezembro, pouco depois da prisão de
Delcídio. À época, além do senador, foram presos seu chefe de gabinete,
Diogo Ferreira, o advogado de Cerveró, Edson Ribeiro, e o banqueiro
André Esteves pela mesma suspeita de obstruírem a
Operação Lava Jato, que investiga o esquema de corrupção na
Petrobras.
Segundo a revista, as conversas foram entregues à Procuradoria-Geral da
República por Delcídio, que, em depoimento formal, disse que o ministro
agira a mando da presidente
Dilma Rousseff, acusando-os de tentar comprar o silêncio de uma testemunha, obstruindo o trabalho da Justiça. Seriam informações da delação de Delcídio, homologada nesta terça-feira (15) pelo
STF.
Na primeira das gravações é possível ouvir a voz do ministro dizendo que
o congressista "errou" e diz ter achado "um absurdo" a postura do
presidente do PT, Rui Falcão, quando foi exposta a gravação de Delcídio
propondo formas de fuga e repasses constantes para Nestor Cerveró.
No segundo áudio, o ministro indica que o senador deve pensar em uma saída jurídica, pois a prisão não se justificaria.
"Eu acho que ele devia esperar, não fazer nenhum movimento precipitado,
ele já fez um movimento errado, deixar baixar a poeira, ele vai sair, a
confusão é muito grande. Aí... entendeu?", diz Mercadante. "Para ele não
ser um agente que desestabilize tudo. Porque senão vai sobrar uma
responsabilidade pra ele monumental, entendeu?"
O ministro também oferece articulação com senadores para que seja feita
uma moção de apoio a Delcídio. Como se sabe, em seguida, os
congressistas votaram pela manutenção da prisão.
Marzagão indica ainda que a família estaria vendendo bens para arrecadar dinheiro, Mercadante também oferece ajuda.
"Bom, isso aí também a gente pode ver no que é que a gente pode ajudar,
na coisa de advogado, essa coisa", diz o ministro. "Não sei. Pô,
Marzagão, você tem que dizer no que é que eu possa ajudar. Eu só to aqui
pra ajudar. Veja o que que eu posso ajudar."
Veja ao fim do texto os diálogos completos divulgados pela revista VEJA.
REPERCUSSÃO
Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, líderes de oposição na Câmara cobraram nesta terça-feira, 15, a demissão de Mercadante.
"O governo está em metástase, acabou", comentou o líder do PPS, Rubens
Bueno, ao jornal. "O governo perdeu o mínimo de equilíbrio para
continuar governando".
O líder do PSDB na Câmara, Antonio Imbassahy, afirmou que a mesma
acusação que prendeu Delcídio, de obstrução das investigações, caberia a
Mercadante. "Se (o governo) tivesse dignidade, exoneraria imediatamente
o ministro", afirmou ao Estadão.
OS DIÁLOGOS DIVULGADOS POR VEJA:
A proposta de silêncio
Aloizio Mercadante - O que é que tem que você acha que eu possa ajudar?
José Eduardo Marzagão - Ministro...
AM - De verdade. Tô falando assim. Eu tô aqui. Ó, eu falei: Eu não quero nem saber o que o Delcídio fez.
JEM - É.
AM - Eu quero... (inaudível) eu acho que ele devia esperar, não
fazer nenhum movimento precipitado, ele já fez um movimento errado,
deixar baixar a poeira, ele vai sair, a confusão é muito grande. Aí...
entendeu?
JEM - Ministro, o problema é o seguinte.
AM - Pra ele não ser um agente que desestabilize tudo. Porque senão vai sobrar uma responsabilidade pra ele monumental, entendeu
Ajuda financeira
AM - É o seguinte, eu me disponho, já te falei isso reservadamente,
eu faço uma agenda no Mato Grosso do Sul, eu tenho que ir visitar uma
universidade, um instituto... eu falo Maika, eu quero passar aí ...da
outra vez ela fez um jantar pra mim... quando eu fui lá fazer uma agenda
e ela fez um jantar na casa. Então, ó eu gostaria de passar aí, lhe dar
um abraço e tal, se tiver espaço.
JEM - Só pra você ter uma ideia, eles estão vendendo a casa.
AM - Pra não ficar expostos.
JEM - Não, até pra...
AM - Arrecadar dinheiro.
JEM - Arrecadar dinheiro. Os carros, a casa. A fazenda, porque é da
mãe e do irmão, então lá não vai mexer. Aliás, o irmão tá vindo aí pra
tratar desses assuntos. Assuntos financeiros mesmo.
AM - Patrimônio da família.
JEM - Patrimônio, as dívidas que ele tem. Pra você ter uma ideia da
situação dele, o salário dele tem consignado. O salário do Delcídio tem
empréstimo consignado, que ele está pagando.
AM - Bom, isso aí também a gente pode ver no que é que a gente pode
ajudar, na coisa de advogado, essa coisa. Não sei. Pô, Marzagão, você
tem que dizer no que é que eu possa ajudar. Eu só to aqui pra ajudar.
Veja o que que eu posso ajudar.
Ajuda política
AM - Eu conversei com vários senadores
JEM - Hã.
AM - Eu falei: vocês se acocoraram!
AM - Ah, pô! Nós tínhamos feito um movimento com o Sarney, o Jader e o...
JEM - Renan
AM - ...o Renan e tal... Aí veio a nota do PT. Que nota do PT? Onde
que o Rui Falcão agora dirige o plenário do Senado? ... é história...
essa instituição tem quase 200 anos de história! Como é que vocês
aceitam uma coisa como essa, gente! Porque isso vai ser um precedente.
JEM - Abriu uma porteira.
AM - Vai abrir a porteira. Então, vocês precisam repensar o
encaminhamento. Talvez o Senado fazer uma moção, a mesa do Senado, ao
Teori, entendeu? Um pedido: olha, nós demos autorização considerando o
flagrante, considerando as condições etc, mas não há necessidade pá, pá,
pá - pá, pá, pá. E tentar construir com o Supremo uma saída. Não pode
aceitar isso. Eu acho que se a gente não for pelo jurídico, pelo
político, pelo bom senso e deixar tudo pra ele que tá acuado, fodido, a
família desestruturada, vai sair só bateção de cabeça. Porque eu posso
tentar ajudar nisso aí no Senado. Vou tentar conversar com o Renan e
ponderar a ele de construir uma, entendeu, uma moção...
Ajuda jurídica
AM - Eu vou tentar um parecer jurídico que tente encontrar uma
brecha pra que o Senado se pronuncie junto ao Supremo com o pedido de
relaxamento da prisão, porque ela não se justifica mais. Acho que esse é
o caminho que eu vejo. Vou estudar e te dou o retorno de hoje pra
amanhã.
JEM - Isso, porque o problema é que o dia D é terça-feira.
AM - Tá.
JEM - Porque se passar terça-feira e não sair, só no ano que vem.
AM - Não, não, mas o presidente vai ficar no exercício... também
precisa conversar com o Lewandowsky. Eu posso falar com ele pra ver se a
gente encontra uma saída. Mas eu vou falar com o ministro no Supremo
também.
AM - Mas é o seguinte, eu não tenho nada a ver...o Delcídio...
zero... não tô nem aí se vai delatar, não vai delatar, não tô nem aí... a
minha, a minha questão com ele é que eu acho um absurdo o que aconteceu
com ele. Primeiro pelo quadro que ele é, segundo pela cagada que não
era necessária aquela exposição que ele teve, terceiro pela atitude das
instituições e do partido (inaudível)... lava a mão, vira as costas, um
cara totalmente... uma coisa covarde pra caralho, um absurdo. Na minha
interpretação, de uma vingança até da... ele pode ter se excedido na CPI
dos Correios, mas é evidente que ele segurou bronca pra caralho.
JEM - Vai saber.
AM - É, lógico que ele sabe. Não sei exatamente os detalhes, mas eu
sei que ele fez o que era possível, prudente, coisas que não estavam
comprovadas, que não eram sérias, mas, é isso aí... (inaudível)... a
função era muito difícil a cobrança em cima dele...
Estratégia de defesa
AM - A estratégia de defesa é nesse sentido, entendeu? Ele foi: meu
mandato, eu quero defender meu mandato, eu quero ter liberdade pra poder
defendê-lo, não posso constranger o meu direito de defesa no Senado e
pá pá pá, prerrogativas, estão aqui as minhas condições e pelo direito
que é líquido e certo, a ilegalidade do ato - é um absurdo o que foi
feito...
JEM - Mas ele não pode falar isso
AM - Não, mas tem que construir. Tem que ter gente pra fazer e falar.
JEM - É.
AM - O que que é a dificuldade? O que é que eu quero te alertar. O Renan é um cara que tem uma zona cinzenta nessa história.
JEM - É.
AM - Como é que o Renan vai se mexer....eu sei que ele tá acuado porque o outro vai... entendeu?
JEM - É.
AM - Como é que o governo se mexe, porque parece que tem alguma
coisa que ele sabe do rabo de alguém. Então, eu acho que tem que tirar
isso da pauta nesse momento, pra defesa dele, tô falando... pra tentar
construir - não sei se é possível a defesa...
JEM - Honestamente eu não sei...
AM - Eu não sei, o que eu vou... o que eu me disponho...como eu te
falei. Olha, eu não quero me envolver mais do que posso. Faço isso por
absoluta solidariedade. Acho que o que o PT fez é indigno e acho que o
Senado não devia ter recuado.
JEM - É. Mas nem só por causa dele.
AM - Não... é institucional, gente.
Evitar a delação
AM - O cara, pô, fodido, acuado, arrebentado, sangrando... eu vou
fazer o seguinte: eu vou conversar com alguns advogados que eu confio.
Acho que vou chamar o Bruno Dantas pra conversar, que foi advogado-geral
da União muito tempo... do Senado, ou algum consultor do Senado que
pense juridicamente se o Senado tem alguma providência pra interferir.
Inclusive alegar o seguinte: nós queremos que ele se defenda, de um
processo aqui pi, pi, pi...
JEM - Sim. Normal.
AM - E crie qualquer porra de um argumento contanto que ele não fique lá preso, acuado desse jeito.
JEM - Que fique em casa com tornozeleira, que fique num quartel do Exército, o caralho que seja, mas lá é...
AM - É ruim. Quando ele fala do risco da delação, hoje o advogado
desmentiu. Fica um negócio assim: Parece que ele tá fazendo porque tá
com medo, entendeu? Porque não tinha essa pauta...
JEM - O problema é o seguinte: é que ele tá desestruturado. Então,
alguém tá colocando pra ele que essa é a única maneira de ele sair de
lá.
AM - Bom, eles fazem isso com todo mundo. Desestruturam o cara.
Botaram... caralho... O que fizeram com o filho do Paulo Roberto foi
isso, com as filhas...
JEM - Sim. Agora, vê a situação dele: um senador com um mandato vigente
AM - Preso.
JEM - Preso, continua sendo senador e... um zé-ninguém lá.
AM - Sim... mas tem um lado e tem que pensar o seguinte... eu acho
que precisa esfriar o assunto dele. Vão vir outros. Vai vir Andrade
Gutierrez, não sei quem, não sei quem, o Zelada, o caralho, vai vir
merda pra caralho toda hora. Aí vai diminuindo. Precisa esfriar o caso
dele. Segundo: ele tando lá, não tem inquérito no Senado. Não tem como
cassar um senador preso.
Solidariedade do governo
AM - Eu não conheço a Maika. Mas se você achar, porque eu vou dizer o
seguinte. Eu sou um cara leal. A Dilma sabe que se não tiver uma pessoa
para descer aquela rampa, eu vou com ela até o final. Eu gosto do
Delcidio, eu acho ele um cara muito competente, muito habilidoso, foi
fundamental para o governo, um monte de virtudes, muito mais jeitoso, ia
atrás, se empenhava, fazia... você não pode pegar uma biografia como
essa, uma história como essa, porque o cara tropeçou numa pedra, numa
situação de desespero, tentando encontrar uma saída, você vê aquele
jeito que ele vai tentando mostrar um serviço, eu não consigo entender
porque ele foi aonde ele foi. Mas foi, não adianta. Então vamos ter que
deglutir isso aí. O que eu acho que ele está precisando agora é algum
tipo de apoio e solidariedade pessoal e político. Então, você veja o que
eu posso ajudar. 'Se você achar, Mercadante, era bom você ir no Mato
Grosso do Sul falar com as filhas dele.' Eu não vou me meter na defesa
dele. Não sou advogado, não tenho o que fazer, não sei do que se trata,
não conheço o que foi feito.
JEM - Mas o que o Rui fez, queimou qualquer possibilidade.
AM - Foi um absurdo. Eu dentro, vou tentar ajudar no que eu posso.
Dentro do governo, dentro do partido menos, porque eu não tenho muitas
relações hoje. Mas vou tentar porque achei um absurdo. Eu quero ajudar
no que eu puder. Só vou fazer o que eu puder. Não adianta me pedir para
fazer o que eu não posso fazer porque eu não vou fazer. Agora, o que eu
puder fazer, eu farei. Então eu quero que você saiba disso. Conversamos
nós dois. Você veja lá o que você acha que ajuda e me passa que eu vejo a
providência que a gente pode tomar. Eu imagino que ele está
completamente sozinho, fica ruim para a segurança dele.
JEM - O senhor é a terceira pessoa. No dia do acontecido, ligou o
Renan e o Sarney para a Maika. Mais nada. E disseram barbaridades,
chamaram a presidente de filha da puta.